sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012 | 10:51 | 0 Comments

Justiça cega? Não, é apenas uma catarata!

O que diferencia o jornalista Pimenta Neves de Lindemberg Alves?
Antônio Marcos Pimenta Neves era diretor do jornal O Estado de São Paulo quando em agosto de 2000 assassinou a sangue frio sua ex-namorada, a também jornalista Sandra Gomide, num haras em Ibiúna, interior de São Paulo. O motivo do crime foi a rejeição. Sandra tinha terminado um namoro que o jornalista insistia em reatar. Diante da negativa, matou sua amada.
Lindemberg Alves, era um jovem sem antecedentes criminais, na época com 22 anos, querido por muitos amigos. Em outubro de 2008 fez sua ex-namorada, Eloá Pimentel, de refém junto com outra amiga, durante quase cinco dias, num apartamento em Santo André. Acabou atirando na amiga e assassinando Eloá com um tiro na cabeça. O motivo: o mesmo de Pimenta Neves, a rejeição amorosa.
Pimenta Neves era rico, um jornalista conhecido e de sucesso. Lindemberg um pobre rapaz da periferia, motoboy sem muito futuro. Os dois são assassinos condenados. A sentença de Pimenta Neves demorou 6 anos para ser dada. A de Lindemberg, pouco mais de 3. Desde que cometeu o crime Neves ficou apenas 7 meses na cadeia e ganhou o direito de responder o processo em liberdade. O motoboy passou esses três anos na cadeia sem direito nenhum. Pimenta foi condenado a 19 anos. Lindemberg a 98.
Na minha opinião, não deveria haver diferenças entre os dois casos. Ambos mataram por rejeição. Independente do motivo, tiraram a vida de alguém friamente por suas próprias vontades. Mas quem definiu as sentenças a que eles foram condenados não foram os juízes que cuidaram do caso - foram suas diferentes condições sociais! Essa é uma das diferenças que separam o motoboy Lindemberg do jornalista Pimenta Neves. No resto são iguais a qualquer outro assassino que usa de frieza para tirar a vida de outra pessoa, baseado apenas no seu egoismo e individualidade.
Mas a justiça não entende assim. E nem eu consigo entender algumas coisas. Por exemplo: porque condenar alguém a mais de 30 anos de prisão se esse é o tempo máximo que uma pessoa, por lei, pode ficar presa? Enche a boca dizer que Lindemberg pegou "98 anos de cadeia". Mas será que as pessoas que comemoraram a sentença como justa sabem que ele deve ficar menos de um terço disso atrás das grades? Pois é! Entendo que há dispositivos judiciais que preveem uma pena diferente para cada crime cometido (no caso dele foram 12) e estas penas se somam. Mas que tipo de conforto isso trás para a família de quem foi vítima? Será que dizer que ele "pegou 98 anos" é mais consolador, mesmo que ele fique menos de 30 preso? É como multar uma empresa em 1 milhão de reais e deixar ela pagar apenas 280 mil e tá bom!
Lindemberg teve o que mereceu. Mas no caso Pimenta Neves, sua condição social lhe trouxe bons benefícios. O jornalista só foi preso 11 anos depois de cometer o crime. Usou todos os recursos e dinheiro que tinha à sua disposição para escapar da cadeia o quanto pode. Agora, aos 75 anos de idade, logo logo voltará para casa para cumprir o resto da sua condenação. Confortavelmente!
Retomo a pergunta: o que diferencia o jornalista Pimenta Neves de Lindemberg Alves? Suas condições sociais? Sim! Mas o que os diferencia mesmo é o olhar que a justiça brasileira teve para cada um deles em razão disso. Nesses dois casos, mais cega para um do que para o outro, provando mais uma vez que a justiça não é tão deficiente visual quanto os togados dizem ser.
Estes dois casos mais o do médico Roger Abdelmasih que, de certa forma, recebeu um "ok" da justiça para sumir para outro país, mostram que a cegueira da justiça é apenas parcial - uma espécie de catarata que afeta só um dos olhos. Para quem não lhes interessa ou para quem não tem recursos, os olhos judiciais estão fechados, às escuras, sem querer enxergar direito. Para outros, os poderosos, estão abertos, bem abertos e sempre com aquela piscadela de cumplicidade.

Ogg Ibrahim
Fonte: http://noticias.r7.com/blogs/ogg-ibrahim/2012/02/17/justica-cega-nao-e-apenas-uma-catarata/